O coração da Bacia do Prata, junto às fronteiras de Brasil, Argentina e Paraguai, abriga duas valiosas riquezas naturais: muita disponibilidade de água (garantida por rios caudalosos como o Paraná e o Iguassu, pelo Aquifero Guarani, que se espalha pelo subsolo de quatro países, e pelo reservatório da hidrelétrica de Itaipu, com mais de 170 quilômetros de extensão e 29 bilhões de metros cúbicos de água estocados) e também por solos férteis, que chegam a produzir três safras anuais e servem como base para um rico complexo agropecuário e agroindustrial.
Do lado brasileiro, essas condições permitiram construir um dos mais promissores segmentos do agronegócio brasileiro, com milhares de pequenos produtores rurais organizados na forma de cooperativas, dedicando-se à transformação de proteína vegetal em proteína animal. Ou seja, são atividades que vão desde a produção de soja e milho, que são utilizados como ração na suinocultura, avicultura e bovinocultura de leite, chegando à industrialização de carnes e laticínios que, além de abastecer o mercado interno, são exportados principalmente para a União Européia, América do Norte, China e Oriente Médio.
Apesar dos inegáveis benefícios econômicos que essas atividades propiciam para a região, a exploração intensiva dos recursos naturais cobra do meio ambiente um preço caro, o que fica evidente pela contaminação do solo e das águas por agrotóxicos, pela perda de solos pela erosão, pela perda da cobertura vegetal e da biodiversidade, e pela produção de efluentes da pecuária (dejetos de suínos, aves e gado) e das cidades (esgotos industriais e domésticos). Como a ocupação humana é recente – a exploração agrícola de forma mais intensa tem apenas 50 anos – a lógica manda mudar os meios de produção agora, pois recuperar a qualidade ambiental de corpos d'água dessa magnitude no futuro será uma tarefa cada vez mais complexa.
É isso que vem pregando o Cultivando Água Boa, um amplo movimento liderado pela hidrelétrica binacional de Itaipu que reúne mais de 2 mil parceiros, entre associações comunitárias, cooperativas, instituições de ensino, órgãos de governo municipais, estaduais e federais, e ONGs. Em cinco anos de execução, esse programa vem, aos poucos, tocando e mudando as vidas de milhares de pessoas, por meio de ações de educação ambiental, apoio técnico às atividades agropecuárias, projetos de proteção à biodiversidade, entre outros.
Tome-se o exemplo da agricultora Vilma Ferronato, do município de Medianeira. Ela consegue reconhecer a marca do agrotóxico usado na propriedade vizinha só pelo cheiro que vem com o vento. Defensivos agrícolas já fizeram parte do dia-a-dia da família dela, mas há sete anos a pequena propriedade de 15 hectares foi convertida para a agricultura orgânica e, nos últimos três anos, ela vem produzindo com a orientação de técnicos do Cultivando Água Boa.
Para Vilma, a principal diferença entre a agricultura orgânica e a convencional está na saúde da família. O marido, Ademir Vicente Ferronato, além de aplicar veneno na lavoura dele, trabalhava como aplicador para o vizinho, em uma propriedade de 180 hectares. O resultado foi intoxicação, que se manifestou com ressecamento da boca e das vias respiratórias, dores de cabeça, de estômago e no fígado, falta de apetite, náuseas e vômito.
Depois de um tratamento que evolveu terapias naturais, os Ferronatos não mexeram mais com veneno. De produtores de milho e soja convencionais, eles passaram a cultivar tomate, feijão, pepino, milho pipoca, amendoim, milho e soja orgânicos. Além das feiras de produtos orgânicos da região, eles vendem para a prefeitura municipal, para utilização na merenda escolar.
Vilma e Ademir estão entre os mil agricultores da região que nos últimos anos abriram mão da produção convencional. Porém, em um universo de 25 mil propriedades, onde muitos ainda dão preferência à monocultura, o emprego dos agroquímicos ainda é muito forte. Mesmo assim, é possível adotar técnicas de cultivo que reduzem seus impactos sobre o meio ambiente, como é o caso do plantio direto. Trata-se de uma técnica desenvolvida no Paraná a partir dos anos 70, que consiste em deixar sobre o solo as palhas e restos vegetais de uma safra intermediária, como milho ou trigo. Essa biomassa serve como adubo e também protege o solo no período de entressafra, quando a terra fica exposta e vulnerável ao clima. No momento do plantio, ela é revolvida com a terra.
O produtor rural Rogério Leonel Ampessan, de Céu Azul, adotou essa modalidade e vê diferença até na cor da água do rio. Em sua propriedade, localizada em Céu Azul, às margens do Rio das Pedras (microbacia do Xaxim, afluente do reservatório da Itaipu), foram adotadas técnicas de conservação de solo, plantio direto, recomposição da mata ciliar e readequação de estradas rurais. “Agora, quando chove, não fica mais aquela água barrenta. O rio está limpo”, afirma. “Com o plantio direto diminuiu a necessidade de fertilizantes e de agrotóxicos e melhorou a produtividade do milho e da soja”, afirma.
Mudanças nas práticas agrícolas são importantes, porém é na pecuária que se encontram os impactos mais agressivos sobre o meio ambiente nessa região, tendo em vista a presença de um rebanho de mais de 1 milhão de suínos e de cerca de 30 milhões de aves. Nesses casos, a proposta é utilizar os dejetos para gerar energia e tornar a propriedade auto-suficiente.
Na Granja Colombari, de São Miguel do Iguaçu, são criados 3 mil suínos em regime de engorda. O esgoto, que antes contaminava o rio, foi canalizado para um biodigestor, onde gera biogás (composto principalmente de metano, cujo impacto sobre a atmosfera é 21 vezes mais forte do que o gás carbônico). O biogás é utilizado para movimentar um gerador que provê energia para a propriedade. A novidade no sistema está no fato de que o produtor, José Carlos Colombari, está vendendo o excedente de eletricidade para a rede pública local, algo até então inédito no Brasil. Além dessa renda, ele tem ganhos extras com o comércio de créditos de carbono, através do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), previsto no Protocolo de Kioto. “Com esse sistema, a gente está demonstrando que é possível proteger o meio ambiente e ainda ter um retorno econômico com isso”, diz Colombari.
Casos como o de Colombari, Ampessan e Ferronato ainda são poucos diante de tantos produtores rurais acostumados a um sistema que trata os recursos naturais como se eles fossem infinitos. Mas oferecem um testemunho importante de que é possível viver da terra sem agredi-la.
* Romeu de Bruns é jornalista em Foz do Iguaçu.